Como a biomecânica da pisada supinada afeta a escolha do tênis
A pisada supinada ocorre quando o corredor aterrissa com a parte externa do calcanhar, mas o pé não realiza o movimento natural de rotação para dentro (pronação) de forma suficiente para distribuir o impacto. Como resultado, toda a força da aterrissagem fica concentrada na borda externa do pé e na estrutura lateral da perna. Esse choque contínuo é o principal causador de dores nos joelhos, canelites e tensões na banda iliotibial.
Por conta dessa rigidez no movimento, o corredor supinador não pode usar calçados da categoria de estabilidade (feitos para pronadores), pois as estruturas de suporte interno empurrariam o pé ainda mais para fora. A escolha correta deve sempre recair sobre tênis da categoria neutra, de preferência aqueles que ofereçam uma base de amortecimento profunda para fazer o trabalho de absorção de choque que o próprio pé não consegue realizar naturalmente.
Amortecimento máximo vs. responsividade: encontrando o equilíbrio
Ao buscar tênis neutros, o corredor com pisada supinada invariavelmente se depara com a categoria de amortecimento máximo (maximalistas). O grande volume de espuma é o melhor aliado contra o impacto, mas a textura dessa espuma muda a dinâmica da corrida.
Modelos como o New Balance Fresh Foam X 1080 v13 e o Asics Gel-Nimbus 26 utilizam espumas extremamente macias. Eles criam uma sensação de “afundamento”, o que é excelente para poupar as articulações em dias de recuperação, mas pode roubar um pouco da velocidade do corredor na hora de decolar. Por outro lado, tecnologias como a espuma ZoomX do Nike Invincible 3 ou o PWRRUN+ do Saucony Triumph 21 focam na resiliência: elas absorgem o impacto com maciez, mas devolvem parte dessa energia como um “empurrão” elástico, tornando a corrida mais eficiente e dinâmica, mesmo em longas distâncias.
A resistência do solado: o calcanhar externo agradece
Uma das maiores frustrações de quem tem pisada supinada severa é a durabilidade do calçado. Como o atrito com o asfalto acontece quase que inteiramente na lateral externa (especialmente no calcanhar e no antepé), a borracha dessa região costuma derreter muito antes da entressola perder suas propriedades de amortecimento.
Para evitar aposentar o tênis precocemente, é vital observar a distribuição e o material da sola. Modelos que deixam muita espuma exposta podem não aguentar a abrasão diária. Em contrapartida, tênis blindados com compostos rígidos, como a borracha de carbono X10 do Mizuno Wave Sky 7 ou o padrão Waffle espesso do Nike Invincible 3, são investimentos muito mais seguros para supinadores que treinam em asfalto rugoso, prolongando a vida útil do par.
Cabedal flexível: o alívio para quem tem arco plantar alto
Existe uma correlação anatômica muito forte entre a pisada supinada e o “pé cavo” (aquele que possui o arco plantar bastante elevado e pouca área de contato no meio do pé). Pés com arcos altos naturalmente ocupam mais espaço vertical dentro do tênis. Se o material do cabedal for rígido, o corredor sentirá pressão no peito do pé, o que pode causar dormência, bolhas e dor ao longo dos quilômetros.
Ao escolher um tênis, supinadores devem priorizar malhas elásticas, como os knits encontrados no Gel-Nimbus 26 e no New Balance 1080 v13, que se esticam e se moldam à altura do pé como uma meia. O conforto da lingueta também é crucial: linguetas superacolchoadas, como a do Saucony Triumph 21, atuam como um escudo, impedindo que a pressão dos cadarços estrangule a circulação sanguínea na parte superior do pé.
Custo-benefício e limitações estruturais: quando vale investir mais?
Tênis de amortecimento máximo premium costumam exigir um investimento superior a R$ 1.000,00 e muitas vezes próximo aos R$ 1.400,00 devido ao uso de espumas tecnológicas leves e cabedais complexos. Esse valor se justifica para corredores que enfrentam altos volumes semanais, preparam-se para meias ou maratonas completas, ou têm histórico de dores crônicas. O alívio articular entregue por opções como o Hoka Bondi 8 tem um preço, mas economiza em sessões de fisioterapia no longo prazo.
No entanto, para rodagens diárias mais curtas ou para corredores mais leves, não é estritamente obrigatório gastar os valores cobrados pelos topos de linha. Um modelo como o Brooks Ghost 15 atende perfeitamente à demanda do supinador tradicional por um custo ligeiramente menor, entregando uma plataforma neutra, segura e durável. A limitação é apenas a ausência da sensação de “andar nas nuvens” em corridas acima de 15 a 20 quilômetros.
Perguntas frequentes
Existem tênis fabricados exclusivamente para pisada supinada?
Não. As grandes marcas não fabricam modelos categorizados como “apenas para supinadores”. Como a supinação exige liberdade de movimento e alta absorção de choque, a recomendação unânime de especialistas e ortopedistas é utilizar tênis da categoria neutra, preferencialmente aqueles com alto nível de amortecimento, que cumprem o papel de proteger os pés contra os impactos laterais.
O que acontece se um supinador usar um tênis para pronadores?
É altamente contraindicado. Tênis para pronadores possuem estruturas de estabilidade (como placas mais rígidas ou espumas mais densas na parte interna) projetadas para barrar a rolagem do pé para dentro. Se um supinador usar esse calçado, o tênis forçará o pé ainda mais para a borda externa, agravando a biomecânica irregular e aumentando drasticamente o risco de torções, dores crônicas e lesões graves.
Como identificar se a minha pisada é realmente supinada?
O método mais simples e prático em casa é o “teste do desgaste”: observe a sola de um tênis antigo e verifique se a lateral externa (principalmente calcanhar e ponta) está visivelmente mais gasta que o resto. Outro indício comum é o arco plantar muito alto (pé cavo), que pode ser visto no teste da pegada molhada no papel. Para uma certeza clínica, o ideal é realizar um teste de baropodometria com um fisioterapeuta ou ortopedista.
Qual é a vida útil média de um calçado para quem tem pisada supinada?
Geralmente, um tênis de corrida neutro dura entre 500 km e 800 km. Contudo, devido à pressão excessiva que o supinador exerce na lateral externa do pé, a sola tende a se desgastar mais rápido nessa área específica. Se a borracha for inteiramente comida antes da entressola perder seu amortecimento (quando o pé passa a pisar torto devido ao buraco na sola externa), é hora de trocar o calçado, mesmo que ainda não tenha atingido a quilometragem máxima recomendada.